Militarismo: poemas de guerra e de paz

Felipe G. A. Moreira


Nessa última chamada – Militarismo – recebemos muito menos poemas do que nas duas últimas. Uma explicação para isso, dentre outras plausíveis, é que o tema da vez era mais específico e menos usual. Logo, ele fez com que poetas do reconhecimento ou modernistas normativos não enviassem poemas contemporâneos típicos. Leia-se: sobre racismo, sexismo ou homofobia à moda de um falatório de cancelamento público ou de uma conversa em lugares de “esquerda pequeno burguesa” como a Praça São Salvador no Rio de Janeiro.

O menor número de poemas enviados também me desmotivou, ao menos, um pouco. Quero dizer: esse número me fez ter menos fé no projeto de justificar publicamente o porquê de alguns poemas terem sido publicados em detrimento de outros. Não sei. Talvez seja preciso aceitar que não tem que ter critério mesmo; que melhor é ser arbitrário; que o que importa no fim é fazer conexão afetiva para conseguir aparecer em qualquer lugar que seja.

Mas não quero acreditar em nada disso ou que é mais pertinente abordar exclusivamente poetas já renomados. Foi por isso que selecionei – pela última vez? – três poemas sob a mesma base negativa das outras seleções (ver 1 e 2), isto é, o fato deles não parecerem ser poemas do reconhecimento ou modernistas normativos. Os poemas selecionados são estes aqui:

“A morte de cada momento não pode ser adiada”, de Vander Vieira.
“O General”, de Lucas Grosso
“Das armas”, de Nicolas Rosa

O critério positivo para selecionar “A morte de cada momento não pode ser adiada” foi que este poema aponta para uma visão pessimista ou (ouço um oponente me corrigindo) realista. A visão – talvez não muito distante da que Freud defende em certas cartas para Einstein – é que existe uma espécie de necessidade de algum tipo de violência, digamos, num sentido mais ou menos usual de “violência” ou em algum sentido mais técnico como o de ação contrária à essência de algo; o da decadência e da morte de tudo que existe. Afinal, a própria natureza humana é violenta. Não sei se acredito nisso. Mas ao apontar para esse viés, esse poema do Vander me pareceu ter valor estético ou, ao menos, me pareceu mais motivado do que outros que foram enviados e que, em suma, se valeram de um discurso antiguerra ou antimilitarismo um tanto quanto simplista. Por exemplo, sugerindo que seria pertinente simplesmente eliminar as forças armadas do Brasil ou até mesmo que seria fácil acabar com todas as guerras. Quero dizer que “A morte de cada momento não pode ser adiada” se destacou para mim.

O mesmo é o caso de “O General” do Lucas Grosso. Este poema me parece satisfazer outro critério positivo para merecer ser publicado na Subversa; o de esboçar um retrato psicológico insólito de um general ou de alguém que por conta de algum tipo de auto-ilusão se vê como um general. Esse retrato é o de alguém que sofre de certos delírios de grandeza ao ter “sonhos napoleônicos”; que repete de modo obcecado as mesmas atitudes ao se valer de uma mesma “fórmula” e que não encadeia seus pensamentos de um modo particularmente lógico. Nesse viés, a passagem do quarto para o quinto verso do poema é bastante interessante; ela quebra certas expectativas gramaticais. Isso se dá porque “bestial” não parece dever se seguir (gramaticalmente falando) de “que a terra molhada de urina” mas, sim, fazer um corte de raciocínio. Esse corte remete então a uma psicologia de uma guerra interna que caracteriza o general ou pretenso general em questão.

Já “Das armas”, de Nicolas Rosa, é o maior poema dessa seleção. Digo “maior” no sentido literal de possuir um número superior de palavras em relação aos outros poemas. “Das armas” também foi o poema que eu li mais vezes. Tem dias que eu gosto desse poema. Tem dias que eu pouco o suporto. Bem, não vou defender que o mero fato desse me poema me causar esse conflito interno justifica o reconhecimento da sua existência nesse espaço. Mesmo porque outros poemas não selecionados também me provocaram algo parecido.

Também não vou defender que o fato desse poema parecer autobiográfico seja lá muito relevante. Notemos ainda que não parece ser muito difícil encontrar razões para não publicar “Das armas”; a mais óbvia quiçá é que diferente dos poemas do Vander e do Lucas, este poema tem um estilo consideravelmente prosaico. Na verdade, “Das armas” pode ser plausivelmente interpretado como um texto em prosa meramente dividido em versos.

Optei, ainda assim, por publicar esse poema à luz de outro critério; o que embora ele possa ser um poema do reconhecimento para muitos que, com o eu-lírico desse poema, participam das forças armadas brasileiras, ele fala de uma experiência que precisa ser levada em consideração para o que, imagino, é o cerne do público da Subversa. Leia-se: gente que frequenta esses lugares da “esquerda pequeno burguesa”; gente que fica “agitada” quando confrontada com qualquer pessoa que não compartilhe de suas crenças básicas; gente que é incapaz de entender a racionalidade de alguém que problematize tais crenças etc.

Veja o seguinte: “poema do reconhecimento” é uma conceito relacional; um poema é do reconhecimento em relação a alguém. Daí, acho que alguém que pensa como o eu-lírico de “Das armas” é uma espécie de outro para muitos dos leitores dessa revista. Fazer com que esses leitores se confrontem com esse outro por meio de um poema bastante longo que pode causar constrangimento é uma espécie de dever do que merece o título de ESQUERDA.

ESQUERDA” talvez isso diga respeito a uma perspectiva que reconheça a importância de ter forças armadas fortes no Brasil. Em outras palavras, forças capazes de defender o Brasil de um possível ataque militar dos EUA. Sonho? Talvez. Mas um dia, espero trazer a público um longo poema, “maRília”, que mostra que esse sonho é ao menos imaginável. Por ora, encerro, ressaltando ainda que essa edição conta com uma entrevista com a cientista militar Bruna Rohr que possivelmente é uma outra outra de muitos dos nossos leitores – assumindo que esses existem e que nem todo poeta só quer ser lido mas não se digna a ler ninguém.

Risos. Não risos. Risos nervosos sem dentes ou graça.

Felipe G. A. Moreira é doutor em Filosofia pela Universidade de Miami. Publicou as coletâneas de poemas Por uma estética do constrangimento (2013) e FGAM (2021) e o livro de filosofia The Politics of Metaphysics (2022). No momento, é Pós-Doutorando na USP, onde desenvolve pesquisa sobre a filosofia da lógica, sob a supervisão do Prof. LD Edélcio Gonçalves de Souza. O presente trabalho foi realizado com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), Brasil. Processo 2024/13530-2. As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações expressas neste material são de responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a visão da FAPESP. https://www.felipegamoreira.com/