Não sei muito o que dizer
Sobre o militarismo.
Eu fui para o quartel,
Fugido do emprego civil,
Que me fez ser internado
Numa clínica psiquiátrica.
Sai praticamente
Direto da clínica
Para um curso de formação
De soldados.
Depois de formado,
Meus colegas fizeram
Um meme comigo:
Consistia na imagem do Buzz Lightyear,
Com a cabeça trocada pela minha,
Consolando o Woody, consternado,
Com o título: ‘’Na educação era pior’’
Porque enquanto os soldados normais
Eram quebrados no quartel,
Eu vim da Educação já danificado.
Tudo que eles reclamavam do quartel,
Eu dizia que passei por algo pior
na Educação,
Motivando o meme.
Quando cheguei ao quartel,
Tive que aprender a marchar,
Noções de direito militar,
Aulas de tiro,
Atendimento a emergências
E urgências.
O sargento instrutor
Volta e meia
me chamava de retardado.
Eu não me importava muito,
Porque sabia que aquele concurso
Era melhor do que eu tinha anteriormente.
Na verdade, o sistema militar
Acabou sendo vantajoso para mim,
Porque eu tinha um soldo quase igual
Ao meu antigo salário,
E não gastava com aluguel,
Água, energia, comida
E ainda tinha instrução física
E aulas gratuitas de Direito Administrativo
E Penal de graça durante o dia.
Depois de formado,
Exerci, sem grande destaque,
Funções burocráticas.
Faço o mesmo até hoje,
E provavelmente farei até reformar.
Encontrei,
Durante esse tempo,
Dois tipos de discursos opostos:
A de que o militar é um super-homem,
Apto a não só governar o quartel,
Como o melhor para reger a sociedade,
E a face reversa da moeda,
Que diz que o militar é um pobre coitado,
Oprimido pelos oficiais, ou pelos oficiais superiores.
Ambos pecam pelo excesso:
Muitas vezes o militar não manda direito
Nem sequer na caserna,
E ainda quer entrar no resto,
Metendo o pé pelas mãos,
E fazendo chiliquinho no estilo Newton Cruz
Quando contrariado.
Além do mais,
Quem trabalha no Carrefour, no MC Donalds,
Na Atento, na Uber,
Aguenta coisas que fariam um fuzileiro naval
Ou veterano do BOPE chorar,
E eles não tem como ‘’pedir pra sair’’
Porque precisam pagar as contas do mês.
O discurso contrário,
Com falsa empatia,
Diz que o militar é um animal.
Colocam arreio, estribos e viseira nele
Quando ele se alista,
E saem montando nele
Até ele não aguentar mais.
Dizem que ele é doutrinado
A gostar de matar pobres
E ser indiferente as causas sociais,
E a aceitar passivamente
Todo tipo de ofensas e abusos
Dos superiores e do sistema de poder.
Muitas vezes as mesmas pessoas,
De acordo com a conveniência,
Adotam os dois tipos de discursos,
A depender da ideia que queiram vender.
Ora falam dos militares
Como herdeiros de Golbery,
Sempre conspirando nas sombras
Para voltar ao poder
E vender o Brasil para os Estados Unidos.
Ora como pobres coitados,
Prisioneiros do sistema capitalista,
Que precisam ser libertados,
E ensinados sobre
o verdadeiro patriotismo
E a ter consciência de classe.
Fica meio contraditório,
Um mesmo grupo de pessoas,
Serem ao mesmo tempo o Imperador Palpatine
E uma horda de orcs estúpidos.
É necessário se decidir:
Ou eles são articuladores perversos,
Ou são cavalgaduras consumadas.
A realidade é mais prosaica:
Como o resto dos funças,
Eles tem lá seus interesses corporativos
(Quem não tem?)
E como muitos vieram da classe trabalhadora,
Ou pelo menos da classe média baixa,
Compartilham com esse extrato da sociedade
Seus preconceitos, medos, aspirações.
Assim como o legionário romano,
Vivia para se aposentar e começar um sítio,
O militar médio sonha com a reforma,
Onde poderá dedicar mais tempo
A terminar seu doutorado,
Ou a seu pequeno empreendimento.
Além do mais,
A liberdade que oferecem a ele,
Existe em algum lugar?
Cresci nos meios políticos:
Lá havia doutrinação e manipulação
Quinhentos por cento do tempo.
E digo mais:
Se você brigar com um capitão,
Ou tenente-coronel,
Pode ir preso,
E perder medalhas,
Mas se você brigar com um deputado,
Ou vereador,
Nunca mais consegue cargo.
Enquanto eu via sargentos e subtenentes
Que tentavam adequar a carga de trabalho
A quem podia aguentar,
Nos meus empregos civis,
Eu via gerentes que impunham metas
Como quem coloca um fardo de cimento
Em cima de um jegue.
Vi sindicatos civis:
Muitas vezes os piores trabalhadores
Os procuravam,
Para aparecem com cartazes e microfones na mão,
E se lançarem como vereadores
na eleição seguinte.
Se o militarismo tem coisas ruins,
Essa ‘’liberdade’’ não é de fato muito atraente.
Por isso desconfio dos políticos civis,
Que se dizendo nossos amigos,
Tentam nos induzir ao motim
e ao descontentamento.
Muitos são bem-intencionados:
Mas muitas vezes
tendo grandes problemas
Na própria casa,
Querem dar palpites na nossa.
Houve excessos em Canudos,
na Revolta da Chibata,
Nos anos 30, 70, e no Haiti?
Desnecessário falar mais deles:
A historiografia, farta,
Documenta todo tipo de equívocos
e barbaridades.
Mas isso não é a essência da tropa.
Ao mesmo tempo que houve isso,
Inegável,
O que há,
É que nas torres do SINDACTA,
Nas fábricas de Campinas,
Nos caminhões de bombeiros,
Nas rondas Maria da Penha,
Há gente dedicada garantindo, todo dia,
Que as pessoas possam sair de casa,
Tendo certeza de que vão voltar.
Os americanos falam da ‘’fina linha azul’’
E da ‘’fina linha vermelha’’
Que separa a civilização da barbárie.
Sem ser vaidoso,
Nós somos a ‘’fina linha verde’’
Que garante que os mesmos
Que nos criticam em coquetéis fúteis,
Possam fazer isso sem serem assaltados
Ao saírem da portaria.
O que Golbery e Newton Cruz fizeram,
Está feito,
Assim como quem fez o que fez
Com Simonal,
Também não vai pedir desculpas.
Cabe construir um novo pensamento.
Se antes,
A doutrina americana
Era o que predominava,
Que se eduque
O praça e oficial do amanhã
Dentro dos preceitos do terceiro-mundismo
E do respeito aos Direitos Humanos.
Fazendo isso,
Aos poucos se trocará
O pensamento antiquado
Por uma visão mais moderna:
É o que sonho,
E acredito que muitos colegas,
Igualmente sonham,
Queremos melhorias,
Sem destruir a parte boa
Das tradições.
Aprimorando nossas armas,
Deixaremos de temê-las.
Nicolas Rosa é bombeiro Militar e estudante de Gestão de RH, vive num apartamento em Salvador com a noiva e um casal de gatos. Foi Conselheiro Municipal de Cultura e Diretor de DQA no Rotaract em Santo Antônio de Jesus, última cidade em que morou. Se formou Multiplicador no Politize, e logrou aprovação em variadas antologias, de poesias, crônicas e contos. As suas aprovações mais importantes são no concurso Jornadas de Junho do Jornal Nova Democracia, e no concurso Yoshio Takemoto da Nikkei Bungaku, além de ter vencido um concurso no Instagram da Embaixada da China.
