A Juan Gelman
Há uma árvore defronte à minha casa
da qual saem pássaros,
cantos, ventos e, quando há frio o bastante,
brumas. Do que pousa sobre meus olhos
as fotografias têm pouco a dizer:
a despeito da velocidade vociferante
da técnica humana, as lentes ainda soam lentas
diante da mágica das retinas
e do espetáculo constante da vida que se põe em movimento.
A cada vez que me inclino diante
do verde das folhas, escancaro o fracasso
das tentativas de eternizar
os sopros invisíveis que movem tudo o que pode ser movido.
Tento aquilo que há séculos se mostra em vão:
a morte de cada momento não pode ser adiada:
não pôde ser adiada a morte do rio doce,
o genocídio das crianças paraguaias não pôde ser adiado,
ainda não pôde ser adiada a dor das mães palestinas,
mãos e pés de congoleses ainda pendem nas janelas
da classe média belga, que não pôde adiar
a ida aos zoológicos humanos de Leopoldo II num belo domingo à tarde.
Da varanda de minha casa, defronte de uma árvore, ignoro a história e
tento aquilo que há séculos se mostra em vão:
nem milhares de versos mudarão o ocaso do ser humano.
Vander Vieira é escritor e mestre em Filosofia Contemporânea pela UFES. É professor de filosofia da educação básica e pública, pesquisador do pensamento negro/afrodiaspórico e autor dos livros Descaminho (Multifoco, 2015) e Dois (Kotter, 2021). Atualmente pode ser lido em diversas revistas e sites de literatura, como a Subversa.
