Ciência Militar no Brasil: entrevista com Bruna Rohr Reisdoerfer

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Bruna Rohr Reisdoerfer é doutora em Estudos Estratégicos Internacionais (UFRGS). Foi pesquisadora visitante na Cátedra de Estudos Europeus e Relações Internacionais da Universität Würzburg (Alemanha). Mestra em Ciências Militares pela Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Bacharela em Relações Internacionais (UFRGS). Realizou pesquisa de campo na OTAN, no Comitê Militar da União Europeia, na Representação Militar da Alemanha na União Europeia, no Estado-Maior da União Europeia, no Parlamento Europeu, no Ministério das Relações Exteriores da Alemanha e no Parlamento alemão. 1º Lugar no Prêmio Tiradentes do Ministério da Defesa do Brasil. Indicada ao Prêmio CAPES de Teses. Participa de atividades estratégicas das Forças Armadas. Possui produção científica nas áreas de Estudos Europeus, Geopolítica, Segurança Internacional e Integração Regional. Mentora de carreira e de desafios empresariais e governamentais. Atualmente é analista do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) (lotada no setor de gestão do Programa Espacial Brasileiro - INPE), professora e pesquisadora líder do Grupo de Pesquisa em Segurança Internacional (SEGINT) no IDP Brasília.

Entrevista realizada por:

Felipe G. A. Moreira (filósofo e pesquisador pós-doutoral em Filosofia na USP)
Morgana Rech (psicanalista e pesquisadora pós-doutoral em Teoria Psicanalítica na UFRJ)


1. Em seu trabalho, principalmente na sua dissertação de mestrado que foi premiada como a melhor do Brasil na área da defesa, você defende (ainda que não diretamente) a necessidade de maior investimento em estudos sobre as estratégias de defesa do Brasil. Como você avalia o estado deste campo do conhecimento atualmente nas instituições brasileiras? Há espaço suficiente para se formar analista militar?

O campo dos Estudos de Defesa possui uma grande tradição no meio científico, com pesquisadoras(es) desenvolvendo pesquisas e assessoramento de ponta há décadas. Todavia, o movimento de absorção desse conhecimento e desses profissionais pelas instituições brasileiras (civis e militares) ainda é restrita. Ainda falta o elo entre a produção de conhecimento nesta área e a absorção desse conhecimento pelas instituições no Brasil. Ainda não existe uma carreira consolidada de analista de defesa para fora da academia, no Brasil. Somente em 2025 é que pela primeira vez, se estruturou a carreira civil de Analista de Defesa. O primeiro concurso foi em outubro de 2025 e os seus desdobramentos ainda estão por vir. Ainda é incerto o futuro dessa carreira e como ela será absorvida pelo Estado brasileiro. Até o momento, muito se debateu sobre a sua estruturação. A carreira, esperada por décadas por especialistas da área, veio com relativa desvalorização. O Plano de Carreira não conta com retribuição de titulação e a sua remuneração inicial é baixa se comparada a outras carreiras. Ademais, a carreira se desenhou de forma transversal e ligada à Segurança Pública. Ou seja, na prática, a(o) profissional poderá ser alocada para o setor da Segurança Pública ou em qualquer outro ministério que não o da defesa. Dessa forma, provavelmente, a maior parte das(os) profissionais selecionadas(os), serão profissionais de início de carreira, resultando na baixa absorção por parte das instituições de Estado, das(os) profissionais já altamente qualificadas(os) e com décadas de experiência.

2. Quais os principais desafios que o Exército Brasileiro enfrenta atualmente para se fortalecer em termos estratégicos?

Bruna: Em termos estratégicos, um dos principais desafios não só do Exército Brasileiro, mas das demais Forças Armadas é manter a prontidão e a inovação em um Estado com recursos limitados e que não passa por fortes ameaças estatais. No que se refere ao próprio Ministério da Defesa, o principal desafio estratégico é o seu relativo insulamento dos demais ministérios e de setores da sociedade, levando a desconhecimento da natureza das suas demandas, a investimento insuficiente e a um baixo debate entorno de uma Política de Segurança Nacional (na qual a defesa comporia uma de suas esferas). A realidade brasileira é complexa, misturando desafios de Defesa com desafios de Segurança Pública. Logo, é essencial a sociedade incluir essas temáticas em seus debates. Nesse sentido, a pergunta anterior complementa também, a resposta para essa: a inserção de profissionais civis para o assessoramento ou para a própria tomada de decisão em níveis estratégicos na defesa, poderia fazer esse elo de maior aproximação com a sociedade e de debate junto com os demais ministérios.


3. Ultimamente, a definição de “soberania nacional” voltou à cena da realidade brasileira. No entanto, no debate público midiático não se aprofunda o problema. Qual você diria que é o papel do investimento no Exército para que se atinja uma melhor definição desse termo?

A estruturação do Estado Nacional moderno no séc XVII pós Tratado de Westfália, veio justamente com a delimitação clara de fronteiras, com o princípio da não-intervenção de um Estado em outro e com a estruturação do nacionalismo. Ou seja, a própria nacionalidade tem a sua origem na soberania territorial. Por sua vez, como vivemos em uma realidade internacional anárquica; ou seja, sem um Estado mundial ou uma força policial internacional capaz de manter longe potenciais ameaças ao território brasileiro, às instituições e às riquezas nacionais; o investimento em Forças Armadas se torna necessário. Todavia, conforme venho apontando desde o início da entrevista, esse investimento não é suficiente. A defesa da soberania não se faz somente com investimento em Forças Armadas. Esse investimento para se sustentar, deve ser resultado de um projeto estratégico e claro de Estado. Pois, é dele que advém os insumos que dão sustentação e direcionamento às missões das Forças Armadas. Soberania se alcança com investimento em educação, tecnologia e inovação; em projeto econômico forte, em resiliência societal, em desenvolvimento humano e em segurança pública. Somente uma sociedade forte, mantém um exército crível. Ou seja, Forças Armadas equipadas e bem preparadas são condição necessária para garantir soberania, mas sozinhas não são suficientes.

4. Quão importante seria instituirmos o estudo da história do Exército Brasileiro em nossa formação básica?

Eu considero bastante importante,pois ela é essencial para entender a constituição, a natureza e os padrões de ação do próprio Estado brasileiro. Isso porque, a história da formaçãodo Exército Brasileiro se interliga à própria história da criação de um Estado nacional após independência de Portugal. Ademais, o simbolismo do início da criação de uma identidade nacional é remetido à Batalha de Guararapes, na qual se uniram grupos armados indígenas, negros e portugueses para a expulsão de tropas holandesas. Por fim, assim como em outros países da América Latina, há forte presença militar (com constantes intervenções), na política brasileira (Proclamação da República, Revolução de 30, Estado Novo, Regime de 1964...).


5. Nas últimas décadas, alguns estereótipos ligados à figura do militar têm sido trazidos à politização da população brasileira, sendo essa figura amada e odiada, por diferentes segmentos dos civis. Por que você acha que essefenômeno ocorretemos essa dificuldade em enxergar o militarismo com olhos mais realistas?

A politização faz parte da natureza do processo político. Por isso, esse é um fenômeno que naturalmente ocorre com qualquer figura que adentra o campo da política. Assim, a partir do momento em que figuras militares passam a atuar politicamente de forma intensa, elas ficam expostas a essa dinâmica. Todavia, isso vai de encontro à natureza apolítica das Forças Armadas em Estados Nação democráticos; dificultando o debate entorno das reais necessidades das Forças e tornando-as vulneráveis a oscilações de governo.

6. Na sua dissertação, você apresenta uma distinção entre duas formas de cooperar:
uma forma intergovernamental e outra forma supranacionalinstitucional. Qual dessas duas formas, em sua visão, é mais urgente a ser assumida pelo Brasil, pensando na segurança nacional em tempos de guerra?

A cooperação entre Estados sempredepende não somente das ações de um deles, mas sim do agrupamento com o qual se quer cooperar. Uma forma supranacional pressupõe que as instituições internacionais tenham autonomia dos governos centrais - algo difícil e de longo prazo. Já a intergovernamental, coloca centralidade nos Estados como decisores das ações. A escolha por uma das duas formas é complexa, envolve uma série de fatores, mas o fato é que conforme defendo nas minhas análises recentes, a pressão sob a América do Sul aumentará conforme aumentar a rivalidade entre Estados Unidos, China e Rússia e somente uma América do Sul coordenada poderá tentar buscar certa autonomia e manter certa soberania frente às pressões extrarregionais. Portanto, uma cooperação regional é (e será cada vez mais) essencial frente a um Sistema Internacional mais incerto e polarizado; seja ela no modelo supra ou intergovernamental.


7. O termo bandwagoning sugere uma espécie de compromisso pacificador com aquilo que representa uma ameaça em potencial. Numa linguagem popular, seria como “unir-se ao inimigo, se você não pode vencê-lo”. Na psicanálise nós temos o termo “ganho secundário”, que é quando diante de uma perturbação mental com a qual você inicialmente não se identifica, ao constatar que você não pode vencê-la facilmente, você passa a assumi-la como parte da sua personalidade como forma de neutralizá-la e ter ganhos com isso. É uma estratégia de defesa, afinal. Você diria que o militarismo, em geral, pensa estrategicamente levando esse tipo de defesa em consideração?

Eu diria que as Ciências Militares, com certeza. O ‘bandwagoning’ (ou seja, o ‘unir-se ao inimigo’) como uma estratégia de defesa militar é amplamente debatida pelas teóricas(os) e tomadoras(es) de decisão. Existe um grande debate na literatura entorno do que se configuraria como uma ameaça e quando essa estratégia seria ou deveria ser adotada. Isso porque, para uma tomada de decisão orientada, não ideologizada e otimizada, é essencial entender quais são os pontos fortes e fracos de um país e como lidar com eles, visando a maximização do bem comum. No caso do Brasil, considerado um país em desenvolvimento; otimizar recursos, capital político e encontrar espaços de projeção e barganha se torna essencial. Para tanto, conforme você colocou, precisamos encontrar o nosso “ganho secundário”. Somente assim, seremos um ator crível nas Relações Internacionais. Confesso que o termo ‘militarismo’ me causa desconforto. Acredito que ele precisa ser melhor trabalhado, pois não me parece que haja uma definição consensual e difundida entre as diferentes áreas. ‘Militarismo’ é uma teoria? Uma ideologia política? Uma doutrina militar? Um sistema político, uma cultura societal, uma identidade ou tudo isso? Enfim, recentemente o termo passou a ser utilizado mais comumente por diferentes áreas; todavia, sem um rigor quanto ao seu significado.

8. Existem, como querem os puristas, uma essência do militarismo ou ele é sempre relativo aos acontecimentos políticos globais?
(não possuo conhecimento sobre esseponto, sugiro deixar essa pergunta para uma socióloga. Confesso também, que o termo ‘militarismo’ me causa desconforto, acredito que ele precisa ser melhor trabalhado, não me parece que haja uma definição consensual e difundida).

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