Nove dedos e o retorno à realidade (de novo)


Há um debate na televisão entre um democrata e um fascista. Ao democrata falta um dedo. Ao fascista falta a alma. Ele não faz outra coisa senão praticar seu fascismo: acusa o adversário de praticar a agressão que ele mesmo incita. Não apresenta outro projeto senão a sua própria propaganda: você é fraco porque te falta um dedo.

Lula tem quatro dedos na mão esquerda. Todos sabem o que essa mão decepada representa: o homem e a máquina; o confronto entre a fome e o canibalismo num dia comum. Há anos não falávamos publicamente sobre o décimo dedo de Lula e eu agradeço aos Bolsonaros por isso. Há anos algo tão notório não retornava do real devolvendo um pingo de realidade à população. No meu idealismo, naquele momento, o povo olhou de novo para seus dez, nove, oito ou sete dedos e lembrou para que e para quem mesmo eles servem. Trabalho, amputação, smartphones e vejam só: urnas eletrônicas.

Há muita gente sem membros superiores e inferiores no Brasil. Muita gente amputada. Acidentes de trabalho, de nascimento ou de vida cortam carne por aqui. Mas sonhos a gente não decepa tão fácil. Por mais dilacerados, eles não desaparecem dos chãos de fábrica da noite para o dia. Tem gente que sente o braço ou a perna perdida quando chove. Tem gente que usa prótese, na realidade ou no delírio, tanto faz.

Real e realidade não são a mesma coisa. O dedo perdido é real por sua dura condição de dedo separado da mão. Realidade são sessenta milhões de pessoas lembrando que estão mais próximos do homem do que da máquina devoradora (ainda).

Em 2018, ficamos com aquela ideia cafona de um amor malsucedido e desacreditado. Em 2022, com a exaustão e um estranho alívio. Em 2026, estamos saindo da eleição não só com a virada vitoriosa, mas com a digitalização política de várias mãos cheias. E (também idealisticamente), com evidências de que o humor e o erotismo fazem efeito numa hora dessas. Basta ver os gringos usando o corpo para dançar nosso axé eleitoral em outras línguas.

Às vezes é só o que a realidade precisa: um décimo dedo decepado pairando no real e participando da reeleição de um homem que agora tem um dedo para cada mandato em sua mão esquerda.

Que um fascista saiba perder uma eleição ninguém espera. Quanto a isso, nada de novo no front. O que o fascismo faz é assediar povos. Nunca disputou eleições.

Morgana Rech

Psicanalista. Pesquisadora pós-doutoral em Teoria Psicanalítica (UFRJ). Uma das fundadoras da Subversa. E-mail: mo.rech@gmail.com