Subversa

Uma canção ao entardecer | Pedro Belo Clara


fotografia: Bruna Bucher


A dança de asas denuncia a rola.
Tardando o poiso, o som do gesto alado
dilui-se no murmúrio da brisa gentil.
Num súbito fulgir, a imensidão
onde dançam as coisas sem nome.

Cresce pelos campos o apelo da maravilha:
o perfume das laranjeiras em flor,
as ervas absortas no oiro da tarde
que lenta foge, os rebentos breves
das silentes árvores onde esquecemos
o cansaço, as aragens ainda guardando
finas agulhas de gelos idos.

Aparições duma vida só,
movimentos duma dança sem fim.

São os teus olhos de terra profunda
que quebram o encanto, assim entregues
à exaltação das lonjuras, ao revérbero
do fruto deposto no carinho das mãos.

Na surpresa do instante, adorável e viva,
uma canção como nascente pura
nascida de funduras que só a noite conhece
– na soleira húmida dos teus lábios invocando
a primeira forma de ser pássaro sem cor.

Depois da última nota, o sol em despedida
– saudando os corpos felizes no leve peso
dum dia de pequenas flores abertas
em sorriso – essa frágil casa que alberga
a infinidade das estrelas iminentes.


PEDRO BELO CLARA nasceu em Lisboa, Portugal. Um ocasional prelector de sessões literárias, actualmente é colaborador e colunista de diversas publicações literárias portuguesas e brasileiras. O seu último trabalho foi dado aos prelos sob a epígrafe de “Quando as Manhãs Eram Flor” (2016). É o autor dos blogues Recortes do Real, Uma Luz a Oriente e The beating of a celtic heart.

Sobre o Autor

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