Subversa

Por caminhos de nada | Pedro Belo Clara


fotografia: Bruna Bucher


Demorava-se na boca o sabor redondo duma nêspera gotejando manhãs. Verbenas e frésias pareciam colorir as curvas dum passo errante – rendido a cada sopro, a cada livre cantar. Pássaros azuis furavam nuvens breves; outros, talvez verdes talvez negros como a noite esquecida, buscavam trovas na folhagem do dia. Um aroma de vida absoluta fervilhava serenamente no suave florir de cada instante. E tudo era outro parecendo o mesmo.

No vivo esplendor de cada aparição, gloriosa por saber da morte que a espera, algo de nós diluía-se, como se na dança de duas borboletas – tão antiga quanto o murmúrio da terra. Um silêncio profundo crescia nos corpos até quebrar essa frágil barreira, revelando-se uno no mistério de tudo. Serenos no seio do enigma soubemos como cada momento é o lar, cada movimento uma entrega. Não mais a fronteira entre as cores do coração e todos os traços onde os olhos, enternecidos, ofereciam a luz do seu amor. Só então lembrámos o que aprendêramos a esquecer.

A palavra não conhecia gesto nem ansiava forma. Toda a dúvida morria, exausta de ignorância, nas praias dum sorriso sem berço. As horas despiam o seu disfarce, e logo se clareava a fantasia que sempre teceram. Aquietasse-se o passo ou seguisse um rumo sem direcção não conheceria sobressalto o mais íntimo de nós. Num amplo abraço a tudo e de tudo viça uma branca flor.

As andorinhas sempre souberam quando partir, e com as felosas aprendemos a descobrir nas aragens quando o seu gosto mais frio se apura. Então, ao sinal dum imperceptível chamamento a rota rescrevia-se por mão própria. De novo o adro de sombra fresca, as casas de cal vestidas, os canteiros cintilando no seu abandono de cravo ou crisântemo – chamando como as mães apelam ao recolher dos filhos.

Com os corações aquietados e os olhos doridos de tanto sol, regressávamos –  com o passo certo de quem nunca houvera partido.


PEDRO BELO CLARA nasceu em Lisboa, Portugal. Um ocasional prelector de sessões literárias, actualmente é colaborador e colunista de diversas publicações literárias portuguesas e brasileiras. O seu último trabalho foi dado aos prelos sob a epígrafe de “Lydia” (2018). É o autor dos blogues Recortes do Real, Uma Luz a Oriente e The beating of a celtic heart.

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