Subversa

Outra face de Aurora | Giovane Adriano dos Santos


“Por que antes não preferiste a rosa aurora, muito mais em conformidade com o ritual eterno e repetitivo de tua casa?”

Francisco Dantas, em Coivara da Memória

 

– Tenho algo a dizer.

– Diz, Aurora.

– Lembra-se da coivara?

– A que vimos em um terreno distante?

– Não.

– Qual?

– A obra, a do Francisco… _ eu a interrompi:

– Dantas. Sim, por quê?

– Há nela uma alusão a Marcelino Pão e Vinho.

– Há?

– Sim.

– O que entende por alusão?

– Você já sabe. E, segundo minha leitura, esses textos se relacionam de modo muito sutil e pontual. É algo, como todo o mais que leio e ouso comentar, revelado em fragmentos.

– Como assim?

– Repara neste trecho do iniciozinho de Coivara_ ela diz e o lê calmamente _ “Com as repinicadas desse Hurliano tangedor de horas, também se esfarraparam e se diluíram o pregão de Marcelino com o seu cheiro de pão”.

Terminada a leitura, comenta:

– Nota que o toque do sino, como no texto de José María Sánchez Silva, anuncia a chegada de Marcelino a um lugar. Na obra do espanhol, o espaço ao qual chega o pequenino é, por assim dizer, real, o convento; em Coivara, diferentemente, o anúncio do sino não indica que Marcelino chega a um lugar do mundo, e sim a um lugar textual, a outro mundo, isto é, à própria escritura do tabelião-narrador. Narrador que, ao introduzir a alusão, que será esfarrapada e diluída – como convém a esse modo de ser do palimpsesto –, parece acrescentar e retirar algumas palavras ao texto de Sánchez: o pregão de Marcelino com seu cheiro de pão talvez não desperte o interesse da pessoa que lê; mas, se houvesse sido escrito o pregão de Marcelino Pão e Vinho, seria dada ênfase à passagem. Concorda?

– Não sei. Isso é muito confuso.

– Responde.

– Já respondi. Quero ouvir mais. Por favor, continue.

– O que eu dizia?

– Que o título de Sánchez é… _ ela emendou:

– aludido por Dantas. Porém, não é só isso. Nos dois textos, há um homicídio incerto, uma suspeição de crime.

– Outras obras abordam homicídios, supostos ou não. Coivara alude a todas elas?

– Posso continuar?

– Sim. Óbvio.

– Eu não disse que somente os supostos crimes avigoram a alusão. O que pode reforçá-la, sim, é a semelhança entre o que ocorreu ao narrador de Coivara e o que ocorrera a Marcelino Pão e Vinho.

– Ocorreu e ocorrera? Por quê?

– Talvez um dia eu possa explicar. É o bastante.

– Quanto às personagens, situações diferentes sucederam a ambas.

– Sim, mas não há semelhança que as possa unir?

– Refere-se ao fato de, quando crianças, elas terem sido deixadas aos cuidados de pessoas externas à família?

– Sim.

– Como você o entende?

– No texto de Dantas, o menino é levado ao internato de cuja estruturação nós não sabemos muito; no de Sánchez, ao lugar habitado por religiosos cristãos. O que há em comum a essas crianças, você parece já ter sugerido, é que, após um homicídio que abala suas famílias, elas, as personagens, são deixadas aos cuidados de terceiros. Sentindo-se culpado pela morte de um homem, o pai de Marcelino põe o pequeno à porta do convento e, acompanhado pela mãe da criança, foge ao poder das autoridades locais. Em Coivara, percebo algo diferente: o homem que teria sido vítima de homicídio é quem, digamos assim, deixa a criança, o futuro narrador da história, aos cuidados dos avós dela; mas, decorrido algum tempo, outros parentes levam-na ao internato, lugar de onde sairá criticando a opressão escolar e o exílio de que sugere ter sido alvo.

– Há mais?

–  Sempre há mais. O que temos além do símbolo e da figura? Tudo é e sempre foi cunhado à forma de elipses. Sob as coisas, aquilo que não atingimos, pois sequer cogitamos existam. A rosa, antes que a possamos chamar assim, não sabe, por exemplo, se romperá o solo calmo de um jardim ou o solo sobre o qual conspiram a guerra.

– Não entendi. Quais motivos há para essas afirmações?

Ela não responde a mim e sorri com a sinceridade que nunca encontrei em outro rosto, mesmo enquanto eu caminhava pela multidão da cidade à procura de um gesto que se recusasse a aceitar a compleição, muda ou altissonante, dos acontecimentos. Aurora me deixa sentado nesta cadeira – neste ermo a que alguns chamam cafeteria e a que outros não sabem nomear exatamente – e vai ao céu que está sendo entalhado pela pachorra de traços impressionistas. Os traços são desencadeados por um vestido azul que dança, dança e dança. Em certas ocasiões, penso que Aurora – nome que inventei para Sofia – é louca; em outras, que age silenciosamente.


GIOVANE ADRIANO DOS SANTOS é de Morro do Ferro, MG. Publica na Revista Subversa no quinto dia de cada mês.

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