Subversa

Pombos | Fernando Alves Medeiros


— Mãe…

— Que é?

— Não faz isso…

— O quê, menino?

— Isso, mãe. Dar arroz pros pombos…

— Por quê?

— Porque eles são sujos, mãe. Eles transmitem doença. São até chamados de ratos de asas.

— Mas eles tão com fome!

— Mas é errado!

— Larga de besteira, menino. O pombo aqui é tudo limpinho. Vem ver. Aquele branco ali, bonitinho, tá vendo? Tá até fazendo barulho de alegria!

— Mas, mãe…

— Olha o rajadinho querendo roubar o arroz do pretinho…

Cruzei meus braços, fiz beiço, enquanto minha mãe parecia se divertir. Ela permaneceu sentada no tamborete, enchendo a mão na travessa e jogando, de tempos em tempos, punhados de arroz no chão de terra batida do nosso quintal. Para os pombos, aquilo era uma verdadeira festa.

Na longínqua Araquá das minhas lembranças, eu sempre me recordo do céu azulado tão cheio de pipas, sujo cá e acolá com nuvens de crepom; do ar eternamente gasto, empoeirado e amarelo como uma velha fotografia que cheira a guardado…

E dos pombos, imbatíveis, arrulhando à sombra de nossa frondosa pata-de-vaca.

— É boa pra diabete — dizia minha mãe, observando aquelas folhas em formato de coração; aquelas flores rosadas lotadas de estames. E era em sua sombra que eu filosofava, com meu cão, em uma meia solidão poética de ricos ensinamentos.

Mas, agora, tudo foi tomado pelos pombos, vários pombos, que continuavam seu ritual: bicando, andando e fazendo barulho; bicando, andando e fazendo barulho…

— Mãe…

Sem chance. Eu poderia até argumentar, tentar ser lógico e impertinente, mas filho pouco pode mudar a opinião da mãe. Será que podia?

Um pensamento, porém, brilhou forte em minha mente, como um relâmpago. E ribombou, sacudiu com estrondo o meu espírito traquinas de moleque.

— Menino!

Em um gesto rápido e brusco, fiz minha arte. Os pombos, espantados, voaram espalhando arroz para todos os lados. Em meus lábios desenhou-se um sorriso sádico, sob os protestos de minha mãe.

*

E aí, fui brincar de outra coisa.

Como boa criança do interior, eu corri no espaço enorme que era, a um só tempo, garagem, jardim, horta e lavanderia. Tentei em vão tirar meu cão da preguiça – a moleza do calor e o peso dos seus anos o prendiam no chão como correntes. Besouros e moscões do pequeno milharal do meu pai voavam perto demais da minha cara.

— Você está aí, é?

— Sim, mãe. Por quê?

— Vem ver. Olha ali, o pombo voltou tudo.

Olhei, e nem consegui pensar em nada quando vi os pombos em maior número retomando a mesma festa em que eu pusera um fim. O sol, já exausto, se escondia atrás dos barracos e antenas espinhas-de-peixe, enquanto meu cachorro, com a língua de fora, ensaiava despreocupado a sua risada mais uma vez.


Fernando Alves Medeiros | São Paulo, Brasil | http://cafeseblablablas.blogspot.com.br/

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