Subversa

Horácio | David Barreto Coutinho


Por estimas a Horácio, ou hipocrisia estrutural dos bens orgânicos da espécie, acrescentei quatro linhas em minha última carta ao meu herói de rabos trançados por grossos fiapos de cabelo. Para Horácio, que tendo a espada em punho me perguntas o que sou daquele homem, pedi uns minutos para que me ouvisse, ele não os tinha, então permitiu que eu escrevesse. Ative-me antes a introdução (E que belezoca de Introdução), partindo do problema característico – e alvo da minha seta – para depois contar um pouco de mim. Assim o fiz, detalhando minha vinda para a cidade quando pequeno, mas não sem antes declarar que tinha consciência de todo murmurinho entoado pela arraia-miúda da vila, contando a história de Dom Infante – O violeiro espanhol, que fora cobiçado por Idália, filha mais velha de Horácio – O Alto, um bretão, meio russo, que tinha o pai francês exímio colonizador no Egito. Diziam a boca pequena que ela havia acenado seu lenço bordado de rosas brancas para Dom Infante, e que este, conhecendo as vicissitudes em guerra de Horácio, passara reto a tentação de retribuir os olhares e acenos de Idália. Meu velho pai em sua bebedice dizia que mulher rejeitada era como uma espinha de peixe entalada na goela, e não se passaram três dias de caçada até que o corpo de Dom Infante estivesse desmembrado a golpes de enxada, uma violência bastante comum para os confins do Leste Europeu, mas que Horácio jurava de pé junto ter sua ‘ponta estética’ copiada dos nativos da América do Sul. O corpo, nu em pelo, ficou exposto aos redores da cidade, lembrando que para Idália não se negava nem mesmo um olhar.

Foi assim, com arte em desvio, que transcendi o assunto da cobiça e da fornicação, passando adiante a minha história de pequeno até o momento da tragédia, o que, por sua vez, certamente não era muito. Quando cheguei aqui era um raparigo minúsculo e tinha verdadeira admiração por castiçais e candelabros, podia passar manhãs inteiras a mirar os ornamentos banhados em ouro e prata vindos das Américas Latinas e que compunham agora nossas catedrais. De origem humilde que era, sempre preferi as paróquias, entre elas a de Santo Agostinho e de Idelfonso de Viena, línguas recorrentes de minha escassa literatura. Ganhei a vida quando menino carregando caixotes, compras das senhoras da alta classe, e fazendo mudanças, percorrendo assim toda a cidade como bom ouvinte para aqueles todos que tanto falavam. Ouvi pela prima vez as histórias de Horácio, que ainda nos seus cento e sessenta centímetros, não detinha a alcunha de ‘O Alto’, como viera a ser após tantas conquistas. Quando aprendi a escrever, tomei nota de todas as histórias que ouvia, e de repente eu compartilhava a vida de todos. Pensei aí, como toda criança pensava, que poderia compor o quadro de belos guerreiros galopantes de Horácio, escrever não parecia tão nobre quanto lutar, mas na luta, como na vida, nunca me mostrei experiente combativo, nem sabia manejar a espada – que era bastante pesada para mim – mesmo que treinasse frente a jabuticabeira (Eu gostava de jabuticabas) com galhadas compridas, eu sempre perdia para a grama marota, para a folhagem que fazia cócegas e para o sopro do vento que me assustava.

Certo dia, cansado de lutar comigo mesmo, sentei-me a chupar as jabuticabas, que deixavam minha boca numa cor roxa muito forte, vi passar então a mais linda das mulheres, que naturalmente era Silviana Esposito Melena, uma espanhola vinda das colônias francesas na Tunísia, terras altas da África costeira, quem me ensinou andar de mula e desbravar montanhas. Naquele dia bebemos água no rio e ela riu do meu embaraço pela boca totalmente roxa, com a língua na mesma cor. Andamos por muito tempo, e então nos instalamos no pé da idílica Montanha Celeste, onde aprendi a fazer carvão e coisas básicas de ferreiro, pois Esposito me ensinava tudo, era caprichosa ferreira e poderia derrubar florestas inteiras para fazer carvão. De tempos em tempos batiam na soleira de sua reserva para encomendar uma armadura, uma espada, capacetes, coisas coletivas e individuais, até viradores de lareira, e principalmente compravam carvão. Cresci o suficiente para ter os primeiros resquícios de pelugem no rosto, os quais eu ostentava com altivez sem igual. Nesse tempo chegou um padre italiano, vindo da Sicilia para estudar a ‘scienza Du antrophos logos’ das uvas e dos nossos vinhos e das pessoas da região. Silviana Esposito ferveu de amores pelo padre e disparou uma bala contra a própria cabeça depois de noites a fio remoendo o amor impossível. Antes que eu recolhesse minhas quinquilharias, enterrei a espanhola aos pés da montanha e não pus uma cruz em cima – ela desprezava o catolicismo – e mesmo assim o padre insistiu em rezar por ela. Cantei meu hino dos suicidas, uma letra melancólica que fiz depois de muito sonhar. Deixei, ainda, quatro raminhos de jabuticabeira para representar nossos anos juntos e onde estava novamente repousada nossa amizade. Em seguida parti para a cidade, quando então me acolheu o violeiro, a quem primeiramente conheci por Dom Infante, coincidentemente espanhol, como era Silviana Esposito. Ele tinha a pele alaranjada e uma voz doce, capaz de paralisar dragões com seus cânticos sagrados e o tocar de seu acordeão (Quem saberia por que de ser violeiro?). Seus cabelos eram longos, grossos e trançados como de mulher até a cintura. Embora poucos anos mais velho que eu, contava histórias fantásticas e bastante relevantes. Por ele que eu soube dessas curiosidades dos pães e peixes ingleses regados por cerveja. Falou-me também de um guerreiro Númida, negro como a noite, que usava uma lança maior que o seu corpo e montava com destreza o cavalo. Esse guerreiro, famoso em toda África e Europa, compunha agora o exército de Algarve, sub-região de Portugal. Sua presença nas fileira assustavam os inimigos, acostumados a cortarem entre si a carne branca. Dom Infante dizia que o Númida era abençoado pelos deuses africanos e por isso sempre avançava à frente de todos nas batalhas. Reza a lenda que depois de mil cabeças cortadas o guerreiro poderia retornar para o lado dos deuses que o criaram, alguns duvidavam, dizendo que ele sem dúvida já cortara muito mais cabeças do que isso, mas outros – a maioria – torcia para ver o Númida voltar para seus deuses e se ver livre do seu terror.

Muito longa foi a nossa caminhada, e um dia, com muita curiosidade, eu quis saber o que Infante tanto fumava pelas noites. Isto, meu jovem, é ópio – ele disse. Conheceu o ópio numa viagem além-mar, com um poeta a quem chamara de Álvaro de Campos. Dizia:

É antes do ópio que a minh’alma é doente.

Sentir a vida convalesce e estiola

E eu vou buscar ao ópio que consola

 

E verdadeiramente buscou, pois o ópio consola, aprendeu o violeiro, mas pelo que precisava ser consolado? Era verdadeiramente doloroso andar por tantas terras e mares, sem pertencer honestamente a nenhum lugar. Tivera tantas histórias, mas quais eram as suas? Percebi que tomava o mesmo caminho e por isso fumei do ópio naquela noite e odiei o sabor de acre amargo da coisa que ficou na minha boca até o amanhecer do sol. Procurei saber um pouco mais sobre aquilo e descobri que viria da Ásia menor, especialmente da China, que havia entrado em conflito com a Bretanha por causa do produto. Após anos sem rumo certo e ouvindo histórias, resolvi fazer história, então me despedi de Infante e tomei um barco para o pacífico rumo à Oceania e depois, quem sabe, outro ponto no globo.

Quando voltei já estava velho e a primeira coisa que fiz ao colocar os pés em terra firme foi procurar a Taverna de Celofonte, que perdera seu antigo dono para a tuberculose, assumindo em seu lugar sua única filha Pietra. Realmente havia tempos que eu não pisava nessas terras de novo, a moleca que eu conheci engatinhando agora tinha papas no queixo, mais pela vida difícil do que pela idade de fato. Tomei um uísque cowboy e perguntei se alguém por ali ouvira falar de um certo violeiro espanhol – eu estava aflito para rever meu amigo. Um homem ergueu seu copo para mim dizendo que conhecia o violeiro. Sentei-me em sua mesa e lhe paguei outra bebida. Seu nome era Macário e ele jurava ver e conversar com o diabo quando ninguém mais olhava. Cocei meu olho meio impaciente da tagarelice, mas então ele cedeu-me a rota para encontrar enfim meu amigo. Disse-me, antes que eu saísse, que podia ver meu futuro no fundo de sua caneca de hidromel. Ignorei, porém não sem antes perceber o calafrio que aquilo me dava. Encontrei meu amigo semanas depois, havia fincado raízes e construído uma casa próximo ao lago Sultão, bem como dissera Macário, mas assim que cheguei Dom Infante não me reconheceu, pois eu tinha barbas enormes que cobriam o rosto agora, enquanto ele mantinha o cabelo preso e a pele alaranjada quase igual, apenas com poucas rugas a mais no seu rosto.

Ele me tomou de cima a baixo boquiaberto, seus olhos me diriam como eu havia mudado, e mal deu tempo para tomarmos um chá quente, ele estava partindo de saída, como eu não tinha o que fazer acompanhei-lo. Chegamos antes do anoitecer no centro da cidade, ao passo que eu fui comprar cigarros com as poucas moedas de prata que tinha metido na sacola e na calça. A prata aqui valia muito mais do que os cigarros que peguei, e por mim estava tudo bem assim. O Violeiro seguiu andando e foi então que seu destino se cruzou com o de Idália, corri atrás o quanto pude daquele herói desprovido de sangue nas mãos, e em seu último ato complacente, certo do fim que lhe aguardava, virou-se para mim de longe a gritar que não me aproximasse. Um dia nos veremos de novo, e a tudo isso Idália assistiu e, naturalmente, contou ao seu pai, agora também já velho e ainda mais cruel. Dias depois acharam o Violeiro e o resto já se sabe. Quando fui ameaçado apressadamente por Horácio, me pus a escrever essa carta e acrescento agora as quatro linhas que me faltam:

‘Horácio, tu és baixo. Um nanico. Tua filha é como a Geni dos trópicos, sei que és metido a sabichão, então procures saber disto. Ciente da minha morte, digo que é preferível ser cego a olhar tua Idália. Com a lamparina ainda acesa procurando o barqueiro entrego-te meu caminho à sua espada’.

 

Assinado Ventura


David Barreto Coutinho | Rio de Janeiro, Brasil | barretocoutinho2@gmail.com

Sobre o Autor

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios estão sinalizados *

Entre em Contato

contato.subversa@gmail.com
Brasil: (+21) 98116 9177
Portugal: (+351) 91861 8367