Subversa

Gigantes | Paulo Vicente Cruz


No tempo em que ainda se contavam histórias e existiam crianças para ouvi-las, havia um velho que se sentava numa praça de brinquedos quebrados e amendoeiras antigas para narrá-las.  Na verdade, comentava fatos como se histórias fossem.  Não gostava de fadas. Detestava princesas. Nunca tolerara reis, rainhas ou cavaleiros heroicos. Tinha apreço pelas coisas reais e factíveis.

Sempre que possível reunia infantes para contar episódios inadequados aos seus ouvidos e idades: “Um dia um gato pulou a janela. Morreu ao chegar ao chão. Só os tolos acreditam em sete vidas felinas”.  “Uma mulher religiosa acreditava ser muito saudável e agradecia sempre aos céus por isso. Morreu de um infarto inesperado. Há quem acredite no paraíso, assim como quem teme o inferno. Não há provas materiais sobre a existência de um ou outro. O certo é que a terra ou o crematório consumirão nossa carne”.  “Todos os dias tomamos o leite matinal. Alguns não o têm diariamente. Tampouco possuem o pão. Salivam e engolem. Não é suficiente para matar a fome”.

Era um velho bruto a contar histórias impróprias e a traumatizar almas pequenas.  Naquele tempo não havia antídotos suficientes para verdades, por isso era preciso interrompê-lo. Estava decidido. Matariam o ancião. Disciplinariam a má educação do sujeito por não morrer na idade em que se deve. Mau cidadão que insistia em não se extinguir antes de se tornar um fardo. O velho implorou. Uma história nova que redimisse a verdade de todas as outras. Proposta aceita. Decisão de um tribunal: redenção ou morte.

A praça cheia, ocupada agora por adultos, estava atenta para a ficção a ser narrada: “Havia uma terra habitada por gigantes bondosos e seres minúsculos. Cabia aos gigantes proteger o lugar contra os bichos de sete cabeças que frequentemente ameaçavam aquele território. Guardavam a segurança dos seres menores, mas também cuidavam da própria. Afinal, apesar de gigantescos, tinham suas vulnerabilidades. Todas as vezes que aqueles homens enormes destruíam um monstro, geralmente cortando-lhe as cabeças, dançavam e cantavam para comemorar. Nunca ouviram agradecimentos do povo pequeno.

Ao dançar, sem perceber, os gigantes pisoteavam os homens e mulheres mínimos. Só compreenderam tal relação depois de muito tempo e muitos monstros de cabeças cortadas. Agora entendiam porque as solas de suas sandálias ficavam vermelhas depois da celebração de cada vitória.  Passaram a não ter a quem defender, além de si mesmos”.

Nas alegações finais, o ancião garantiu ao tribunal tratar-se de uma narrativa inventada. Não houve quem acreditasse em sua defesa. Foi sentenciado à morte.  A ação da guilhotina foi celebrada com muito canto e dança. Estava morto o velho que comentava fatos como se histórias fossem.


Paulo Vicente Cruz | Rio de Janeiro, Brasil | pevecruz@gmail.com

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