Subversa

Estilhaços | André Guilherme Almeida


Pelo menos uma vez na vida eu gostaria de dizer que fui íntegro, afundei-me em dias e dívidas e vidas que não podiam esvair-se, deixei que tudo sucumbisse à ambição desmedida em minhas veias, transformei mundos em pó, arrisquei tudo o que não era meu, só meu; pus todos os meus sonhos de infância sob o tapete da vaidade e pisoteei-os até esmagá-los, um a um, até que não sobrasse nada além da ganância, o lucro tornou-se meu aliado, meu melhor amigo, business meus caros, o business, mais que família e amigos, o marketing, mais que filhos, mulher, mais que tia Lurdes, que jaz hoje sob a laje do esquecimento, todos os seus ensinamentos perdidos, seus conselhos, seus gritos, sim, porque tudo que é esquecido grita, então eu grito minha despedida, para que esqueçam de quem eu fui, esqueçam esse pedaço de matéria, que já morreu há muito tempo, e em breve flutuará no remanso plácido do rio abaixo, mas antes peço desculpas, peço desculpas à minha esposa, que por tantos anos aceitou ser rebaixada para o segundo plano das prioridades, que cuidou dos dois pequenos, enquanto eu corria desenfreado atrás de dinheiro, eu, que já estava podre de rico, sim, eu estava podre, e é assim desde então, peço desculpas à mulher que só me queria em casa, que só queria que eu voltasse a ser aquele  universitário que sonhava em ser poeta, o poeta que dizia que o mundo era para todos, o poeta que morreu há muito tempo, para ser sincero aqui, não senti nada quando ela me disse que não dava mais, senti alívio, meus problemas todos resolvidos em um quarto de minuto, poucas palavras, nenhuma ofensa, o choro das crianças, e eu sem saber porque choravam, já que eu nunca fui um pai pra elas, absorto nessa divagação vi o táxi saindo, as ruínas da minha família, o quarto de dormir dos meninos, agora eu poderia me afundar nos negócios, trabalhava feito louco, satisfazia meus desejos mais animalescos com as prostitutas daquela famosa rua, quando não estava no escritório trabalhando estava em bordéis e bares me afogando em álcool e luxúria, tia Lurdes me ligava todo dia pra saber como eu estava, eu sempre dizia um categórico muito ocupado, ela me aconselhava, Alice esteve aqui com os meninos, você acha que compensa tanto esforço, meu filho, eu sempre desligava na cara dela, tinha vezes que nem atendia, fui estraçalhando todas as pontes que me desviavam do meu grande e único propósito, ser um deus, ter tudo e todos aos meus pés, por tudo isso lamento muito, minha tia se foi, a única pessoa que sempre me apoiou, que se importava comigo antes de Alice, junto aqui os últimos destroços da minha vida e traço essas linhas, espero que ninguém leia, para não sentir o peso de tanto entulho, do ataúde que entalhei por tantos anos, em madeira de excessos, ansiedades e falcatruas, ofereço ao vento e às águas esse estilhaço de homem, esse reles fragmento, já que íntegro mesmo eu nunca fui, e nunca poderei ser, nem que tentasse, e eu nunca tentei.


André Guilherme Almeida | Santo Antônio da Platina, Brasil | andreguilherme.a@gmail.com

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