Subversa

a viscosidade dos peixes | Daniella Guimarães de Araújo


como um tucunaré se solta das minhas mãos na beira do são francisco

o texto me escapa

 

como me escapam seus olhos na quarta-feira de manhã

o mês de fevereiro

a faísca  remota da fornalha da infância

o raio fúlgido do meu país de outrora

 

o texto me escapa como a ordem da cidade me escapa

a nuvem rosa em Ipanema

o sol sobre o vidigal

como escapam ferreira gullar e seu filho

como escapa o homem amado

o scroll down do instagram

(num átimo)

 

o texto

é esse colibri na flor que enfeita o cerrado

é meu esquecimento aos cinquenta anos

folha de ipê pisada na calçada de casa

 

sigo perseguindo alfabeto palavra

e sonho

 

(peixe não pesco na hora que quero

nem basta ter anzol e isca)

 

escrevo no smartphone

escrevo em campos elétricos

com um ou dois dedos de cada vez

na tela de cristal plena de pixels

não mais em cadernos ou folhas avulsas

e ainda

escrevo na areia

no espelho do quarto de dormir

 

escorro

palavras de líquido

como tudo no mundo largo

é

diria o senhor polonês

ou o velho budista sorridente

 

(quase nada).


Daniella Guimarães de Araújo | Sete Lagoas, Brasil | daniellaaraujo@yahoo.com.br

Sobre o Autor

1 Comentário

  1. maria clara paulatti 8 de março de 2019 em 19:17

    Parabens Daniella Guimarães, poetisa nata , que possui olhos atentos as significancias do mundo.

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